Educação Ambiental – princípios e práticas
TEXTO DA
ORELHA DA CONTRA-CAPA
Estamos produzindo um mundo que nenhum de nós deseja. A
par dos grandes avanços científicos e tecnológicos, a espécie humana,
experimenta, um grande desafio à sua sustentabilidade: a perda do equilíbrio
ambiental, companhada de erosão cultural, injustiça social e econômica e
violência, como corolário da sua falta de percepção, do seu empobrecimento
ético e espiritual, também, fruto de um tipo de Educação que “treina” as
pessoas, para serem consumidores úteis, egocêntricos e, ignorar as
conseqüências ecológicas dos seus atos.
A Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente e
Desenvolvimento (Rio 92), reconhece essa situação. Em resposta, representantes
de 170 países, formularam a Agenda 21, um Plano de Ação para o Século XXI, com
o objetivo de promover o Desenvolvimento Sustentável, a estratégia mais viável
para enfrentar esse desafio. Reconhece também que o desafio fundamental para a
construção de uma sociedade sustentável é a Educação.
A Educação Ambiental foi identificada, como o elemento
crítico para a promoção desse novo modelo de desenvolvimento.
Tendo as suas bases conceituais conhecidas desde a Conferência
de Tbilisi (1977), a Educação Ambiental, dada a sua natureza
interdisciplinar, polifacetada e holística, reúne os elementos necessários,
para contribuir decisivamente, com a promoção das mudanças de rota que a
humanidade carece.
Esse livro, um clássico de referência, na literatura
ambientalista brasileira, reúne um conjunto de informações fundamentais para a
promoção do processo de Educação Ambiental
Nessa nova edição, revista e ampliada, traz, de forma
comentada, os textos básicos das grandes conferências internacionais sobre
Educação Ambiental, promovidas pela UNESCO e pelo Programa das Nações Unidas
para o Meio Ambiente – PNUMA, em Belgrado (1975), Tbilisi (1977), Moscou (1987)
e Tessalônica (1997).
Inclui as conferências brasileiras e documentos nacionais
decisivos para o desenvolvimento do processo da EA, no país (histórico, cartas,
declarações e outros).
Oferece mais de 100 sugestões de práticas de EA e
apresenta diversos elementos para subsidiar ações (suporte metodológico,
legislação ambiental, vasta referência bibliográfica, nacional e
internacional). Traz estudos de caso, acoplados a outros elementos para a
compreensão das questões ambientais (cronografia, análise
socioecossistêmica e artigos sobre as alterações ambientais globais, a pegada
ecológica, a co-gestão e a sustentabilidade).
Dada a sua riqueza de informações, trata-se de uma obra,
para consultas freqüentes, por todas as pessoas que, de alguma forma, estão
envolvidas com a temática ambiental e mais proximamente, com o processo de
Educação Ambiental.
Índice
Agradecimentos
Apresentação
1. Elementos da
história da EA
1.1. Cronografia
1.2. Introdução
1.3. Histórico da EA
1.4. Política, EA e
globalização
1.5. Análise
sistêmica do contexto socioambiental
1.6. Evolução dos
conceitos de EA
2. Os grandes
eventos sobre EA
2.1. A Conferência de Belgrado
2.2. A Primeira Conferência Intergovernamental sobre EA
(Tbilisi, 1977)
2.2.1. Declaração da Conferência de Tbilisi
2.2.2. Recomendações da Conferência de Tbilisi
2.2.3. Finalidades da EA
2.2.4. Categorias de objetivos
2.2.5. Princípios básicos
2.2.6. Estratégias de desenvolvimento da EA
2.3. Seminário sobre EA (San Jose, 1979)
2.4. O Congresso Internacional em EA e FA (Moscou, 1987)
2.4.1. Observações importantes do Congresso de
Moscou
2.4.2. Estratégia
internacional para ações no campo da EA e FA
2.4.3. Princípios e
características da EA e FA
2.4.4. Orientações,
objetivos e ações para a estratégia internacional em EA e FA
2.5. Seminário
Latino-Americano de EA (Argentina, 1988)
2.6. Os Encontros
Brasileiros de EA
2.6.1. Encontro
Nacional de Políticas e Metodologias para a EA
(MEC/SEMAM, 1991)
2.6.2. Encontro
Técnico de EA da Região Norte
2.6.3. Encontro
Técnico de EA da Região Nordeste
2.6.4. Encontro
Técnico de EA da Região Centro-Oeste
2.6.5. Encontro Técnico
de EA da Região Sudeste
2.6.6. Encontro
Técnico de EA da Região Sul
2.6.7. A Rio-92 e a EA
2.6.8. I Encontro
Nacional dos Centros de EA
2.6.9. A 1a.
Conferência Nacional de EA (CNEA, Brasília, 1997)
Declaração de Brasília para a Educação
Ambiental
2.6.9.1. EA e as
vertentes do desenvolvimento sustentável
2.6.9.2. EA formal:
papel e desafios
2.6.9.3. EA no processo
de gestão ambiental
2.6.9.4. A EA e as
políticas públicas
2.6.9.5. EA, ética e
formação da cidadania: educação, comunicação e informação da sociedade.
2.7. Uma estratégia
para o futuro da vida (UICN, WWF, PNUMA, 1991)
2.8. O Tratado de EA
para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global (1992)
2.9. A Conferência
de Tessalônica (Grécia, 1998)
3. A Política
Nacional de Educação Ambiental (Lei 9765/99)
4. Subsídios para
a prática da EA
4.1. Da Conferência de Tbilisi
4.2. Operacionalização das atividades de EA
4.3. Dos conceitos a
serem utilizados em EA urbana
4.3.1. Sistemas de
vida
4.3.2. Ciclos
4.3.3. Sistemas
complexos
4.3.4. Crescimento
populacional e capacidade de suporte
4.3.5. Desenvolvimento
ambientalmente sustentável
4.3.6. Desenvolvimento
socialmente sustentável
4.3.7. Conhecendo a
incerteza
4.3.8. Características
dos socioecossistemas urbanos
4.3.9. A análise da Pegada Ecológica
4.3.9.1. Os
socioecossistemas urbanos como exemplo
4.3.9.2. A Pegada
Ecológica de Taguatinga, DF – um estudo de caso
5. Um grande
desafio: dimensões humanas das alterações ambientais globais.
5.1. Introdução
5.2. Mudanças na cobertura do solo
5.2.1. Terras cultivadas
5.2.2. Cobertura
vegetal
5.2.3. Campos e
pastagens
5.2.4. Áreas úmidas
5.2.5. Ecossistemas
urbanos (assentamentos)
5.3. Conseqüências ambientais das mudanças na superfície
da Terra
5.3.1. Emissão de
gases
5.3.2. Mudanças
hidrológicas
5.3.3. Mudanças
climáticas
5.4. Forças humanas
indutoras de mudanças ambientais
5.4.1. População
5.5. Considerações finais
6. As atividades
de EA urbana
6.1. Descobrindo a natureza na cidade
6.1.1. A fauna urbana
6.1.2. A flora urbana
6.1.3. Fatores
abióticos – fenômenos naturais na cidade
6.2. Conhecendo o
metabolismo da cidade
6.2.1. Prédios versus casas – um dilema
6.2.2. Ambiente urbano versus ambiente rural
6.2.3. Serviços
essenciais da cidade
6.2.4. A palavra do
profissional
6.2.5. O supermercado
e os materiais recicláveis
6.2.6. A frota de
veículos e os custos
6.2.7. O preço da
caloria
6.2.8. A maquete da
escola ou do bairro
6.2.9. A população
urbana
6.2.10. O lixo gerado
na escola
6.2.11. O consumo de
energia elétrica
6.2.12. Os palitos de
fósforo
6.2.13. A energia solar
6.3. Pesquisando a
qualidade ambiental na cidade
6.3.1. Visitando as
farmácias
6.3.2. A poeira em
suspensão na cidade
6.3.3. O cigarro como
fator de degradação socioambiental
6.3.4. Os carros e a
poluição do ar
6.3.5. Os tipos e os
impactos dos transportes
6.3.6. A construção de
uma estrada
6.3.7. Os ruídos na
cidade
6.3.8. A água que bebemos
6.3.9. Examinando
águas poluídas
6.3.10. Investigando a
poluição industrial
6.3.11. Usos
inadequados do ambiente urbano
6.3.12. Indicadores
naturais de qualidade ambiental
6.3.13. Como você gasta
o seu tempo
6.4. Buscando a
melhoria da qualidade ambiental das cidades
6.4.1. Conhecendo um
EIA/RIMA
6.4.2. A contribuição
individual
6.5. Sugestões
adicionais de atividades de EA
7. Estudos de Caso - Elementos
para a compreensão das dinâmicas da EA
7.1. EA, Co-Gestão e Sustentabilidade no Parque Nacional
de Brasília - PNB
7.1.1. Metodologia
7.1.1.1. O marco conceitual
7.1.1.2. O plano
operacional
7.1.2. Resultados
7.1.2.1. Capacitação de
professoras(es) e monitoras(es)
7.1.2.2. Criação do
Corpo de Voluntários do PNB
7.1.2.3. Os eventos
especiais
7.1.2.4. Avaliações
inobtrusivas
7.1.2.5. EA para o
entorno: interações
7.1.3. O PEA em 2000
7.1.4. Considerações
finais
7.2. O Programa de
Educação Ambiental da Universidade Católica de Brasília – PEA-UCB
7.2.1. O que é o
PEA–UCB
7.2.2. Justificativa
para a execução
7.2.3. Como está sendo
executado
7.2.4. Organograma
Anexos
Subsídios ás Ações em Educação Ambiental
1. Declaração Univerasal dos Direitos
Humanos (ONU, 1948)
2. Declaração da ONU sobre o Meio
Ambiente Humano (Estocolmo, 1972)
3. Carta do Rio sobre Desenvolvimento
e Meio Ambiente (Rio-92)
4. Alerta dos Cientistas do Mundo à
Sociedade (Rio-92)
5. Legislação Ambiental: Instrumento
de Participação Comunitária
5.1. A Política
Nacional do Meio Ambiente (Lei 6938/81)
5.2. Resoluções do
CONAMA (seleção de artigos)
5.3. A Constituição
Brasileira de 1988
5.4. Outros itens
importantes da legislação brasileira
5.5. Outros
instrumentos legais específicos de ação popular
5.6. Coletânea de
Leis. Decretos, Portarias e Resoluções
5.7. Lei dos Crimes
Ambientais (Lei 9605/98 e Decreto 3179/99)
5.8. Como criar uma
Associação
6. Documentos brasileiros importantes
sobre EA
6.1. O Parecer
226/87 do Conselho Federal de Educação (MEC) sobre EA
6.2. A Carta de
Curitiba (1978)
6.3. Carta
Brasileira para EA (MEC, Rio-92)
6.4. O Compromisso
de Curitiba para o Desenvolvimento Sustentável
7. Publicações técnicas sobre EA
7.1. Referências
brasileiras
7.2. Referências do
exterior
8. Sites com informações sobre EA
9. A Carta do Chefe Indígena Seattle
(1854)
10. A Declaração de Caracas sobre a
Gestão Ambiental para a América Latina (1988)
11. Elementos para discussões
11.1. O que foi a Rio
– 92?
11.2. O que é
Agenda-21?
11.3. O que é EA e
como se pratica ?
11.4. Sintomas do
desequilíbrio ambiental
11.5. Escalada humana
e crise ambiental
11.6. Conseqüências
da redução da camada de ozônio
11.7. Conseqüências
do desflorestamento
11.8. Quanto temos de
água no mundo?
11.9. Proteja a a
pureza da água e use-a racionalmente
11.10. Efeito estufa e inversão de valores
11.11. Por que precisamos economizar
energia elétrica?
11.12. Crescimento populacional e padrões
de consumo
11.13. Por que reciclar?
11.14. A cidade precisa ser reinventada
11.15. O que eu posso fazer?
12. Referências bibliográficas
Apresentação
“O Brasil não tem uma política educacional definida, muito
menos uma política para a chamada Educação Ambiental”... Essa era a frase que
iniciava a apresentação desse livro, em suas edições iniciais. Uma década
depois, muito mudou. Temos a Política Nacional de Educação Ambiental (Lei
9765), inúmeros projetos e programas de EA em desenvolvimento e, uma rica
listagem de literatura especializada. O Brasil melhorou os seus índices, de
uma forma geral. Maior espectativa de vida, menor taxa de mortalidade
infantil, mais alfabetização e mais espaço conquistado pela mulher. A internet
ampliou a porosidade das relações humanas, em níveis impensáveis, as ONGs
efetivaram os seus papéis na sociedade, como nova clivagem de poder e as
empresas incorporaram a dimensão ambiental nos seus processos (certificações,
gestão ambiental, ecoeficiência).
Mas, a par dessas manifestações
de conquistas, a sociedade humana, empurrada por padrões de consumo
insustentáveis, impostos por modelos de desenvolvimento insanos, completado por
um mórbido e renitente crescimento populacional, tornou-se mais
injusta,desigual e insensível. Agora, experimenta um profundo colapso de ética
e de valores humanísticos, verificáveis em suas atitudes diárias, permitindo o
crescimento da corrupção, a corrosão da democracia e o alargamento do fôsso
entre ricos e pobres.
Afugentou-se a gente do campo e as
cidades se tornaram superpovoadas, imersas em problemas crônicos de saneamento
e serviços, abrigando hordas de desempregados, subnutridos, doentes e
analfabetos, em favelas, regadas a drogas, prostituição e violência
Acrescentando-se a isso, as
alterações ambientais globais, induzidas por dimensões humanas, agravaram a
crise ambiental, produzindo mudanças indesejáveis (alterações climáticas,
destruição de habitats, desflorestamento, perda de solo, extinção de espécies e
de diversidade de ecossistemas, poluições, escassez de água potável, erosão
cultural e outras).
O quadro se completa, com a
disseminação e retorno de doenças (AIDS. cólera, malária urbana, tuberculose,
dengue) e manifestação de novas doenças (hantavírus e outros). Produzimos um
mundo que nenhum de nós deseja. Aumentamos nossa produtividade agrícola, há
alimentos sobrando no mundo, apodrecendo em armazéns, enquanto 40 milhões de
pessoas morrem de fome, por ano.
Em nenhum período conhecido da história humana, ela
precisou tanto, de mudança de paradigma, de uma Educação renovadora,
libertadora. Mais do que produzir painéis solares mais baratos, reciclar e
dotar os carros de células de combustível, em vez de petróleo, precisamos de um
processo mais completo, que promova o desenvolvimento de uma compreensão mais
realista do mundo. No século XX, o ser humano involuiu, eticamente e
espiritualmente.
O papel da Educação Ambiental, nesse contexto,
torna-se mais urgente. Precisamos oferecer mais formação. A educação ainda “treina” a(o) estudante para ignorar as conseqüências
ecológicas dos seus atos.
Ao falecer, em 1933, o botânico escocês Patrick Geddes –
considerado o Pai da EA -, não imaginava quanto tempo ainda iria demorar para
que a educação incorporasse uma análise da realidade socioambiental. Já pelo
final do século IXX, ele não concordava com os caminhos que a escola trilhava,
tolhendo o educando do seu mundo natural e colocando-o num mundo de
conhecimentos fragmentados e desconectados da sua realidade.
Desde então, a educação continuou sua caminhada evolucionária,
demasiadamente lenta, sem a agilidade necessária de se adaptar aos novos
desafios.
Um sinal de que isto poderia modificar-se foi dado em
1977, quando a Conferência de Tbilisi sinalizou para o mundo os caminhos
para a incorporação da dimensão ambiental, em todas as formas de educação.
Definiram-se conceitos, objetivos, características, princípios e uma seqüência
de recomendações de estratégias para o seu desenvolvimento. Devidamente
embevecidos pela comoção mundial, causada pela crescente crise ambiental, os
representantes das 170 Nações presentes assumiram o compromisso de torná-la
efetiva.
Após dez anos de Tbilisi, a Conferência de Moscou revelava
a insipiência dos esforços em nível internacional. Com o agravamento das
alterações ambientais, no início da década de 90, esperava-se que as
recomendações expressas na Agenda-21, geradas na Rio-92, finalmente
significassem uma mudança de atitude em relação à Educação Ambiental. Cinco
anos depois, durante a Rio + 5, representantes de 83 países relataram
que apenas 10% dos recursos prometidos haviam, efetivamente, sido liberados. Em
1998, a Conferência de Thessaloniki admitiu a insuficiência dos
resultados obtidos.
Agora, no início de uma nova década, encontramos o
processo de Educação Ambiental, em nível internacional, ainda tímido. Poucos
países conseguiram estabelecer o processo preconizado e acordado nos encontros
internacionais.
É óbvio que houve conquistas, mas estas estão sendo
insuficientes para provocar as mudanças de rumo que a velocidade de degradação
ambiental requer. A velocidade com a qual se devasta e se desequilibra os
sistemas que asseguram a sustentabilidade humana, na Terra, continua
infinitamente superior à nossa capacidade de gerar respostas adaptativas
culturais, principalmente em nível educacional. A Educação Ambiental ainda não
representa uma força suficiente para interferir na inércia daquele movimento e
modificar a sua trajetória de desestabilização.
Ainda impera uma instigante indefinição política,
provocada por ignorância ambiental (aquele “Analfabetismo Ambiental” referido
na Conferência sobre Educação para Todos, Tailândia, 1992). Afinal, não
se compreende de outra forma a indiferença de muitos setores à causa ambiental,
à necessidade de mudanças na relação humanos-ambiente.
O caso do Brasil é sintomático. Os documentos contendo as
orientações estruturais para o seu desenvolvimento foram gerados há mais de uma
década. Durante trinta anos ouvimos dizer que a Educação seria prioridade. O
que encontramos pelo Brasil afora configura uma realidade bem diferente e
termina definindo o quanto somos atrapalhados, nessa área.
Louvem-se os esforços do MEC, com recursos limitados,
promovendo conquistas significativas como os Parâmetros Curriculares Nacionais,
a promoção de encontros técnicos, qualificação e outras iniciativas; louvem-se
os esforços do Ministério do Meio Ambiente e do IBAMA, promovendo conferências
e configurando políticas; louvem-se os esforços conjuntos MEC-MMA-IBAMA. Com
os recursos disponíveis, fazem o que podem e muitas vezes, o que não poderiam
(e conseguem, com esforços de pessoas dedicadas, obstinadas e idealizadoras).
Mas, não se pode louvar a omissão da mídia nacional, demasiadamente preocupada
em noticiar catástrofes ambientais, reduzindo a uns tantos que, no seu
cotidiano, exercem o papel formador da comunicação social; não se pode louvar
a maior parte da classe política, lamentavelmente despreparada para exercer o
cargo.
Outrossim, as Secretarias Estaduais de Educação, nas suas
infinitas metamorfoses, sempre à deriva das oscilações políticas, não têm
orientações duradouras. Mudam os políticos, mudam os Secretários, mudam os
Diretores, mudam as idéias, mudam os planos, os quatro anos acabam e tudo
estava para começar. Daí, um novo mandato e tudo se repete. A situação é
fractal.
Nas Secretarias Municipais de Educação, o empobrecimento
ainda é maior. Uma mescla de desqualificação profissional, desmotivação,
salários cronicamente baixos e freqüentemente atrasados, instalações escolares
precárias e prefeitos e vereadores corruptos formam uma mistura explosiva e
colocam a Educação Ambiental fora de plano.
Por outro lado, o esforço de qualificação é mínimo.
Quando ocorre, freqüentemente qualifica alguns professores de cada escola.
Estes, quando retornam às suas unidades escolares, passam a ser encarados como
“rebeldes”, indesejáveis, pela Coordenação e pela Direção. Até mesmo o diálogo
com os colegas se torna difícil. A estratégia de qualificação de professores,
desacompanhados dos seus demais colegas, inclusive da administração, tem-se
mostrado ineficiente. Quando os alunos saem para atividades extraclasse
(caminhadas interpretativas socioambientais, por exemplo), os pais reclamam
(“lugar de estudante é na escola”), o porteiro reclama, a merendeira reclama,
os Coordenadores e a Direção logo acham que a(o) professora(or) “está
enrolando, não quer dar aula”.
Poucos estados possuem estrutura definida para oferecer
qualificação aos seus professores (destacamos o Instituto Anísio Teixeira,
Salvador, Bahia, que possui uma notável estrutura física para receber
profissionais da rede estadual e vem desenvolvendo uma política coerente de
qualificação).
Dada a situação precária que se oferece aos professores,
surge mais um problema para o desenvolvimento de propostas de Educação
Ambiental: a evasão de carreira. A rotatividade é muito grande. Perde-se em
torno de 40% dos professores qualificados, a cada ano. Isto constitui uma
cruel magnificência do problema de quem precisa qualificar mais e mais, diante
de recursos cada vez mais escassos.
A falta de recursos instrucionais, notadamente livros
didáticos especializados, disponíveis, constitui-se em outro impecilho,
aparentemente intransponível. Muitas publicações que chegam aos professores
continuam impregnadas de uma visão preservacionista exclusiva, ingênua e
desatualizada cientificamente. Ainda se confunde Ecologia com Educação
Ambiental. Com isto, os professores são estimulados a desenvolver atividades
reducionistas com seus alunos ou, então, bater na tecla da poluição, do
“desmatamento”, do efeito estufa, da camada de ozônio ou então catar latinhas
de alumínio e reciclar papel artesanalmente. A ingenuidade ainda é muito
grande.
Esta situação é especialmente nutrida pelas universidades
brasileiras: apáticas, vaidosas, obsoletas e dessintonizadas com a realidade,
continuam imersas em sua prática acadêmica utópica. Os cursos de
Administração, Jornalismo, Direito, Economia e Engenharia, entre outros, em sua
maioria ainda não incorporaram devidamente as dimensões ambientais em seus
currículos. Continuam produzindo profissionais que refletem o seu despreparo e
vão engrossar o rol dos devastadores.
Reconhece-se que, para a reversão dessa situação, são
necessários esforços em muitas áreas, além da educacional. Esta situação é
fractal. Transcende o Brasil e espalha-se pelas terras emersas da Terra.
Poucas sociedades estão se dando conta do que está acontecendo. Um mundo
repleto de sociedades que consomem mais do que são capazes de produzir e mais
do que o planeta pode sustentar é uma impossibilidade ecológica.
O desenvolvimento sustentável, baseado nos atuais padrões
de uso dos recursos naturais e no crescimento populacional global vigente, não
é nem mesmo concebível, teoricamente. Isto exigiria uma suspensão voluntária
da nossa incredulidade.
A sociedade humana, como está é
insustentável. Apesar dos inegáveis avanços tecnológicos pós-industriais, a
humanidade inicia o século XXI lutando, não apenas por solo, mas também por
água e ar, num ambiente hostil que remonta à era pré-industrialista. Prevê-se
a barbárie da violência urbana e rural imersa num contexto de conflitos e atos
de terrorismo, gerados pela intolerância, principalmente etno-religiosa
(acrescente-se que o Brasil reúne uma mistura explosiva: a violência no campo
contra o movimento sindical rural e a crescente migração para as cidades,
resultados da estratégia suicida de manutenção, a qualquer custo, das
oligarquias latifundiárias e da má distribuição de renda).
Há a premência de uma profunda
transformação valorativa, o que exige uma reestruturação político-econômica
global, baseada na democracia (ou talvez meritocracia), na eqüidade, dignidade
e promoção humana e na sustentabilidade ecológica e socioeconômica da Terra, fundamentados
no Estado de Direito
Essas mudanças não ocorrerão sem
conflitos, porquanto representam uma forte ameaça à ordem mundial estabelecida,
onde os modelos vigentes de “desenvolvimento” tendem a perpetuar as relações
opressor-oprimido, sob a égide da visão fragmentada, imediatista e
utilitarista.
A eqüidade sócioeconômica é um
elemento crítico para a sustentabilidade, assim como o materialismo e a
crescente ignorância das pessoas, a abordagem tecnocêntrica, a retração
econômica e o débito internacional. Essa visão é em parte corroborada por
diversos autores. Na Declaração da Reunião dos Líderes Espirituais da Terra,
produzida e divulgada na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente
e Desenvolvimento (Rio 92), promovida pela ONU, cita-se que a crise
ecológica é um sintoma da crise espiritual do ser humano, que vem da
ignorância.
Na apresentação da obra Olhando
pela Terra, de James George, o Dalai Lama afirma que a crise ambiental
global é, de fato, a expressão de uma confusão interior. A busca mesquinha de
interesses egoístas causou os problemas globais que ameaçam a todos. Adianta
que a cura do mundo tem de começar num nível individual: “se não podemos
modificar o nosso comportamento, como esperar que os outros o façam?” Na
verdade, se se multiplicam as escolhas e ações individuais sobre o ambiente por seis bilhões, pode-se começar a entender que, cada vez que se faz o que
os outros estão fazendo, contribui-se para o estado traumático e estressado do
planeta, de forma cumulativamente perigosa.
Há, na verdade, uma necessidade
premente de iluminação coletiva, aquela preconizada por Gurdjieff , que
dizia estar o ser humano em um estádio letárgico, adormecido, vivendo, assim, a
maior parte de suas vidas trancado no círculo da sua falta de totalidade.
Foi nesse contexto que recebí o convite para preparar
uma nova edição desse livro. Fiquei imaginando, por que uma nova edição?
Afinal, já existem tantos livros de EA, no Brasil. O que atualizar? O que
suprimir? O que acrescentar? Porém, imediatamente me vem à mente, a imagem
dos rostos angustiados, mas ainda sorridentes e idealistas, de milhares de
colegas professoras(es), ongueiros(as), ambientalistas, que encontrei nas
centenas de palestras e cursos espalhados pelos recônditos do Brasil; do Amapá
ao Rio Grande do Sul, recordo as suas carências, limitações e sonhos; recordo o
seu esforço, dedicação e teimosia; a sua criatividade, resistência,
determinação e crença em um mundo melhor. Vi esse livro, em mãos de pessoas
muito humildes e sobre mesas de poderosos; recebi centenas de cartas relatando
a contribuição que ele prestou e, recordo que ao reunir os subsídios para
prepará-lo, não imaginava, nem de longe, se conseguiria publicá-lo. Logo,
demovi a idéia de não fazê-lo.
Diante disso, e reconhecendo que um grande número de
pessoas ainda não teve acesso às informações básicoas sobre EA, preocupei-me em
manter, nessa nova edição, os documentos básicos de orientação conceitual
gerados nas conferências promovidas pela UNESCO (Belgrado, Tbilisi, Moscou e
outras), acrescentando uma apreciação crítica e, incorporar as mais recentes
orientações (Tessalônica). A série de documentos brasileiros foi
enriquecida, com a Carta de Brasília sobre Educação Ambiental e a Política
Nacional de Educação Ambiental.
A cronografia e o histórico da EA foram atualizados e
ampliados, bem como a parte de legislação ambiental, inclusive com a Lei dos
Crimes Ambientais. Foram acrescentados alguns instrumentos analíticos (a pegada
ecológica), documentos importantes (como o Alerta dos Cientistas à
Comunidade) e estudos de caso. Finalmente, processaram-se correções, quanto
a questão do gênero.
A despeito de todo o contexto assustador, acredito nas
possibilidades da espécie humana. Temos os genes da sobrevivência. Temos que
continuar nossa escalada evolucionária. Transformar os problemas em desafios e
encará-los. E a educação é um dos caminhos mais iluminados, com qualquer um dos
tantos rótulos que receba.
áNinguém é autor. Somos apenas contribuidores, pois
escrevemos iluminados por um legado de idéias escritas por tantos outros
contribuidores.
Muito obrigado e que
Deus ilumine o trabalho de todos.
Genebaldo
Freire Dias
Comentário
Quando redigíamos os originais
desse livro, em 1989, jamais poderíamos imaginar a trajetória de edições
sucessivas que iria acontecer. Originariamente elaboramos o livro para ser
publicado pelo MEC e IBAMA (então recentemente criado). Oferecemos os direitos
autorais gratuitamente. O objetivo era fazer chegar essas informações, até
então engavetadas, a um número maior de pessoas possível. Jamais tivemos uma
resposta.
Em uma dessas tardes quentes de Brasília, entra em nossa
sala a senhora Walda Antunes e pergunta quem tem algo sobre Educação Ambiental
para publicar! Daí já são 9 edições. Temos uma profunda gratidão por aquela
senhora de cabelos prateados.
Esse livro já passou por três modificações – revisão,
ampliação e atualização. A maior parte do seu conteúdo foi fruto de garimpagem
desde 1980. Naquela época a EA era amordaçada no Brasil.
Segundo os editores, essa obra é a mais solicitada dentre
as de nossa autoria, seguida do livro “Pegada Ecológica e Sustentabilidade
Humana”.
Cada uma das suas 550 páginas tem uma história de
dificuldades (a primeira versão foi escrita à lápis e estávamos presos à uma
cama), porém, também uma história agregada de satisfação de missão cumprida. |